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sábado, 3 de maio de 2014


Não consigo me decidir em relação a nada tão sério quanto um matrimônio, sobretudo porque no presente momento não estou precisando de dinheiro, e talvez, antes da morte do velho cavalheiro, o enlace me trouxesse muito poucas vantagens.

A primeira vez que li Lady Susan foi em francês, num pocket que me foi presenteado pela Claire, do Jane Austen Lost in France. Algum tempo depois, quando comprei a edição comentada de Persuasão da Zahar, encontrei uma tradução aparentemente inédita desse romance epistolar muitas vezes esquecido da Austen.

É interessante que quando se falam nos romances da autora inglesa, Lady Susan é muitas vezes esquecido. Isso ocorre talvez porque a um só tempo, esse romance epistolar não se encaixa na chamada Juvenilia, embora tenha sido escrito quando Austen ainda era uma adolescente, tampouco está par a par com os livros mais conhecidos.

Se fosse para resumir Lady Susan em uma palavra eu diria ‘cínico’. Em certa medida, ela me faz pensar no famoso As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos – até mesmo pelo formato de ambos, onde a história é contada através de cartas.

Como já disse antes, Lady Susan é muito diferente das outras obras da autora. Não é uma comédia de maneiras, ou um romance edificante e inspirador. Do meu ponto de vista, me parece um estudo de personagem – uma personagem maquiavelicamente inteligente, manipuladora, sem qualquer tipo de compaixão ou empatia, nem mesmo para com a própria filha.

Onde quer que vá, Lady Susan convida escândalo. Sua beleza e inteligência a tornam irresistível para os homens. Sendo uma viúva, ela não precisa parar no flerte ou nas promessas de casamento como uma donzela – fica implícito quando conta de suas aventuras com um cavalheiro casado que ela fez mais que seduzi-lo com palavras.

O grande problema de Lady Susan, o que a torna uma vilã execrável, não é que ela tenha uma vida sexual ativa – ele foi publicado quase meio século após a morte da autora, talvez porque se tivesse saído ainda à época de Austen, teria ele mesmo provocado um escândalo. Não, não é um problema que se desvincule do estereótipo de protagonista romântica querendo casar por amor. A questão é sua relação com a filha, Frederica.

O abuso emocional que Frederica sofre nas mãos da mãe é para revirar o estômago. Lady Susan diz com todas as letras que é completamente indiferente à filha, exceto, talvez, para encontrar defeitos. Pela descrição que a mãe faz dela, temos a impressão de que Frederica é uma ratinha, absolutamente sem graça, sem vontade ou brilho. É uma impressão diferente das cartas de Mrs. Vernon, a tia, que a enxerga como uma menina doce, mas extremamente tímida, subjugada pelo bullying da própria mãe.

Lady Susan tem dois objetivos de vida: casar a filha com qualquer idiota que tenha dinheiro e casar-se ela própria com um marido rico. Para Frederica ela quer um idiota porque assim será mais fácil de controlar a filha, o genro (e não há muitos escrúpulos ou preocupações em seduzir esse aqui também...) e a bolsa. Para si, ela talvez prefira alguém mais jovem e vigoroso, contanto que seja manipulável.

Austen constrói todo esse drama de forma quase leve, predominantemente no tom irresponsável e arrogante de Lady Susan. A hipocrisia social e das relações familiares é o tema predominante, mas tudo parece estranhamente ausente de julgamentos – a despeito das missivas de Mrs. Vernon, a venenosa Lady Susan parece sempre conseguir se safar com graça e ainda por cima.

Os leitores habituais de Austen provavelmente estranharão a forma como as coisas acontecem aqui, mas Lady Susan é mais que uma simples curiosidade no currículo da autora. Não é a história em si que importa, mas sim os personagens (por isso que chamei de estudo de caráter), brilhantemente elaborados, e as questões morais trazidas por eles.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Já no espírito natalino, Luciana Darce (JASBRA-PE) nos resenha contos de natais em Pemberley!


Happiness, deep love, and Christmas cheer echoed down the lengthy corridors and invaded every chamber of the Manor. But in none were these positive emotions as high as in the Master’s chambers on the upper floor of the south wing.

You see, this Christmas was Darcy’s first as a married man. A newlywed of less than a month, in fact, and to his indescribable joy, his wife was Elizabeth. The numerous questions of the prior Christmas were answered beyond his wildest imaginings. Any delusions or doubts were erased.

Was he in love with Elizabeth Bennet, now Elizabeth Darcy?

Yes! A resounding yes and to a depth that continually staggered him.

Estamos quase no Natal! E que melhor forma de comemorar do que passar as festas em Pemberley?

A Darcy Christmas é uma antologia de três contos de autoras já conhecidas por ‘brincar’ com as palavras de Austen: Amanda Grange, Sharon Lathan e Carolyn Eberhart. Das três, confesso que a única que conheço é a Grange, por causa da série de diários dos heróis austenianos.

É de Grange o conto de que mais gostei, Christmas Present. Os personagens todos ecoam muito bem suas contrapartes originais e é divertido ver como eles se comportam no ‘pós-livro’, com a família toda se reunindo sob o teto dos Bingley, Lady Catherine e Mrs. Bennet competindo por “parente mais inconveniente do ano”.

A relação de Darcy e Lizzie é confortável como boa xícara de chocolate quente num dia frio (algum dia farei algo sobre minha obsessão com metáforas culinárias para livros...) e a história toda é bem gostosa de ler.

Mr. Darcy’s Christmas Carol da Carolyn Eberhart é… eu não sei dizer o que é, para ser sincera. A ideia em si é interessante, mas o desenvolvimento é tão absurdo que se torna inadvertidamente engraçado.

Fiquei um pouco com o pé atrás com algumas inconsistências, especialmente sobre o pai do Darcy e sua relação com o Wickham. Ainda assim, ri quando Darcy cruza com Wentworth ou, melhor ainda, como o próprio Scrooge – e não vamos entrar no mérito que o conto de Dickens é bem típico da era vitoriana, umas boas décadas pós-Austen...

Fecha a tríade A Darcy Christmas, de Sharon Lathan, conto que dá nome à antologia.

Lathan, como Grange, é mais fiel ao estilo de Austen, embora alguns detalhes me pareçam destoar da personalidade que conhecemos dos personagens mais famosos da autora... Ainda assim, a história me agradou, mostrando décadas de natais da família Darcy, o nascimento e perpetuação de tradições de Lizzie, Fitzwilliam e seus filhos.

De uma maneira geral, não é o melhor que já li em matéria de sequências e mashups inspirados em Austen... mas é um livrinho interessante, rápido de ler e apropriado para dias longos sem nada para fazer, quando temos vontade de nos enroscarmos na cama preguiçosamente e ler algo açucarado-indutor-de-diabetes.

Além disso... it’s beginning to look a lot like Christmas... (e Pemberley deve ser liiiiiinda no Natal...).

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Mais uma resenha da Luciana Darce (JASBRA-PE), dessa vez com as origens de alguns dos mais queridos personagens da literatura - incluindo, claro, Lizzie Bennet!


Celia Blue Johnson apresenta nesse maravilhoso livro as histórias por trás de 50 clássicos. O que inspirou e fez cada uma ganhar corpo e tornar-se um sucesso da literatura. Autores como J.R.R. Tolkien, Gabriel García Márquez e Lewis Carroll tiveram inspiração em frases aleatórias, lugares ou fatos corriqueiros para compor verdadeiras obras-primas.

Os clássicos da literatura universal tratam não só da crítica e pensamento da época em que foram escritos, mas da universalidade dos sentimentos humanos no decorrer do tempo, tornando-os imortais. Conhecer mais do processo criativo dos grandes escritores nos aproxima tanto dessas histórias como de nossas próprias vidas.

Gosto muito de saber a inspiração por trás de minhas histórias favoritas – de enxergar como algumas experiências moldaram certas narrativas, certos personagens, certas ideias. Assim é que quando bati o olho nesse livro, já saí com ele debaixo do braço e quase que imediatamente me pus a lê-lo.

Curioso; livros de crítica literária são dos poucos que nunca se demoram muito a ser lidos na minha estante. Às vezes compro uma obra e deixo-a na lista de espera por até uns dois anos; mas livros de crítica são meio que devorados imediatamente, muitas vezes quando estou em ressaca de romances e sem vontade de ler nada.

Ok, isso não é curioso, é confuso. Vamos em frente tratar do que interessa.

Conversando com Mrs. Dalloway não é exatamente crítica literária, mas um livro de curiosidades bem leve, divertido, e nada que vá mudar sua vida – inclusive muitas das informações que aparecem no livro, eu já sabia por pesquisas para resenhas ou clubes do livro.

Ainda assim, é um volume bem organizado, dividido em seções que compilam autores com inspirações parecidas: fatos reais que ocorreram a época, às vezes saídos direitos das manchetes de jornais, acontecimentos de suas vidas que acabaram se convertendo em romances, entre outros. São cinquenta títulos cujos bastidores são desvelados em ensaios curtos, bastante diretos, com linguagem simples, humor e sem julgamentos.

Nem todas as histórias são particularmente enaltecedoras do caráter de seus personagens – o fato de idealizarmos certos autores, colocando-os quase num pedestal, não significa que eles eram boas pessoas, e a autora consegue aqui trazer pequenas biografias sucintas e imparciais, sem esquecer esses detalhes menos lisonjeiros.

De Cervantes a Austen, e Tolkien a Harper Lee, Conversando com Mrs. Dalloway traz uma seleção bastante ampla de autores e obras e é uma boa pedida para bibliófilos e curiosos de plantão.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Luciana Darce (JASBRA-PE) nos traz hoje uma resenha com seres de outro mundo! :)
Northanger Abbey, Angels and Dragons de Vera Nazarian.



For, what is order without common sense, but Bedlam’s front parlor? What is imagination without common sense, but the aspiration to out-dandy Beau Brummell with nothing but a bit of faded muslin and a limp cravat? What is Creation without common sense, but a scandalous thing without form or function, like a matron with half a dozen unattached daughters?

And God looked upon the Creation in all its delightful multiplicity, and saw that, all in all, it was quite Amiable.
De todos os livros da Austen, A Abadia de Northanger é, muito provavelmente, o que melhor se presta para o gênero dos mash-ups – afinal, ele em si já é uma espécie de releitura do romance gótico, satirizando os clichês envolvidos em sua composição. Assim é que, quando procurava algum título para encaixar na minha quota austeniana do mês e de quebra comemorar o dia das bruxas, decidi ir atrás de algum livro que brincasse com a história de Miss Morland.

Devo dizer que foi a escolha mais acertada que eu poderia ter feito. Eu cheguei a me divertir com Orgulho e Preconceito e Zumbis, especialmente com os trocadilhos (que nunca descobri como ficaram na versão em português) – o autor não se leva a sério e a coisa toda é insana -, mas torci o nariz para Razão e Sensibilidade e Monstros do Mar e, mais recentemente, para Emma and the VampiresNorthanger Abbey, Angels and Dragons, de todos esses foi, contudo, o que melhor soube explorar não apenas as lacunas em que os elementos sobrenaturais são inseridos, mas o próprio humor da história.

Eu soltei gargalhadas infindas durante quase toda a primeira metade do livro. Os primeiros capítulos, em que somos apresentados a Catherine são um tesouro (é depois de bater com a cabeça que Cathy passa a ver e conversar com anjos, embora para as pessoas ao seu redor, pareça que ela está tendo animadas discussões com a mobília...) e o que a Nazarian fez com o Torpe Thorpe foi, francamente... um golpe de gênio. E ela consegue isso respeitando o texto original, o espírito dos personagens que Austen criou.

O livro perde um pouco o ritmo a partir do momento em que é introduzido o General Tilney e a ação sai de Bath para Northanger. O plot envolvendo os dragões me pareceu desnecessário, especialmente pelas consequências que teve na confissão de Henry, ao final (fora que essa história de ‘dragão do amor’ me fez revirar os olhos...), mas eu gostei da aparição fantasmagórica da senhora Tilney.

De uma maneira geral, eu me diverti bastante com o livro, dei muitas risadas imaginando a Catherine conversando com seus anjos desastrados... imaginando como é que ela explicaria a situação para o Henry quando chegasse a hora e se ele acreditaria que ela via coisas que não são desse mundo ou a mandaria para o Bedlam. O final foi um tanto abrupto, mas ainda assim, eu recomendo Northanger Abbey, Angels and Dragons para os leitores não puristas da Austen – sem deixar de observar, obviamente, que o original é cem vezes superior.

domingo, 20 de outubro de 2013

Desta vez, Luciana Darce (JASBRA-PE) traz um livro muito conhecido por nós: A Abadia de Northanger


"Não vou adotar esse mesquinho e grosseiro costume, tão comum entre romancistas, de degradar com sua censura desdenhosa os próprios trabalhos cujo número eles mesmos fazem crescer, unindo-se a seus piores inimigos em dar os mais agressivos epítetos a tais obras, sem sequer permitirem que elas sejam lidas por sua própria heroína, que, se por acidente lhe cair nas mãos um romance, decerto folheará suas insípidas páginas com repulsa. Mas ai! Se a heroína de um romance não for apadrinhada pela heroína de outro, de quem poderá esperar proteção e atenção? Não posso aprovar tal coisa. Deixemos aos críticos insultar à vontade tais efusões de imaginação, e a cada novo romance lançar seus surrados ataques contra o lixo que hoje faz gemerem as prensas. Não abandonemos uns aos outros; somos um corpo ferido. Embora a nossa produção tenha proporcionado mais amplo e autêntico prazer do que as de qualquer outra corporação literária do mundo, nenhuma espécie de composição foi mais vituperada. Por orgulho, ignorância ou moda, nossos inimigos são quase tantos quantos nossos leitores. E enquanto o talento do nongentésimo compilador da História da Inglaterra ou do homem que reúne e publica num livro algumas dúzias de linhas de Milton, Pope e Prior, com um artigo do Spectator, e um capítulo de Sterne, são elogiados por mil plumas, há um desejo quase universal de vilipendiar e desvalorizar o trabalho do romancista, e rebaixar obras que têm apenas o gênio, a inteligência e o bom gosto para recomendá-las. 'Não sou um leitor de romances... Raramente folheio romances... Não vá imaginar que leio muitos romances... Para um romance, está muito bom.' Essa é a cantilena de sempre. 'E o que anda lendo, Senhorita...? 'Ah! É só um romance!', responde a mocinha, enquanto larga o livro com afetada indiferença ou momentânea vergonha. 'É só Cecília ou Camilla ou Belinda'; ou, em suma, só alguma obra em que se exibem as maiores faculdades do espírito, em que o mais completo conhecimento da natureza humana, o mais feliz traçado de suas variedades, as mais vivas efusões de inteligência e humor são oferecidos ao mundo na linguagem mais seleta."
A Abadia de Northanger é, sem sombra de dúvidas, o livro mais divertido e juvenil das obras que nos foram legadas por Jane Austen. Não à toa, afinal, embora tenha sido publicado postumamente, foi o primeiro romance que ela escreveu.

Não há a sutileza do texto de Orgulho e Preconceito ou Emma, nem tantos personagens ambiguamente fascinantes, como Wickham ou Willoughby... embora haja já certos traços desses vilões no general-pai e capitão-filho Tilney. A Abadia de Northanger é abertamente e sem pejo, uma grande brincadeira, uma crítica e uma homenagem ao inteiro gênero do romance gótico.

Há uma ingenuidade refrescante em sua heroína – que caminha todos os passos da heroína sem perceber o que está fazendo -; um herói simpático, com um olho muito bom para musselinas e nem de longe tão intenso quanto Mr. Darcy ou o Capitão Wentworth (mas nem por isso menos apaixonante); e um vilão caricatural que gosto de chamar em minha cabeça de torpe Thorpe.

Eu vou confessar que Henry Tilney é um dos meus protagonistas favoritos da Austen. O primeiro lugar é do Capitão, obviamente, mas creio eu que se fosse para escolher na vida real, fora dos romances, eu preferiria um Tilney a um Wentworth. Como já disse antes, ele não é intenso e passional, mas tem um senso de humor delicioso, maneiras encantadoras; ele sabe rir de si mesmo, sabe provocar e flertar num mesmo fôlego, é, enfim, absurdamente charmoso.

E, a despeito de ter o mais complicado conflito familiar de todos os romances austenianos – a breve afirmação que ele faz sobre o papal do pai no definhar da mãe diz muito sobre o que ele pensa sobre o assunto – Tilney é também o mais bem resolvido de seus mocinhos.

Catherine, por sua vez, desperta em mim sentimentos de tia – tenho uma vontade enorme de apertar as bochechas dela e exclamar ‘mas você é uma fofa mesmo!’. Embora muito inocente, a jovem senhorita Morland tem grande potencial para se tornar uma criatura de bom senso, sabendo julgar o torpe Thorpe pelo canastrão que ele é, reconhecendo as vantagens de associação com a senhorita Tilney (não apenas pelo acesso que pode ter ao irmão, mas por um desejo sincero de amizade e admiração), sabe rir e chamar a atenção para os disparates com que Henry freqüentemente a provoca.

O único problema que Catherine tem de fato é essa ingenuidade que a faz ser presa tão fácil para a (detestável, vã e inconveniente) Isabella Thorpe... e uma imaginação febril que a faz enxergar chifre em cabeça de cavalo.

Mas tudo bem, ela continua adorável de qualquer ângulo que se olhe e continuo com complexo de Felícia querendo apertá-la atéeeeeeeeeee estourar.

A Abadia de Northanger é, enfim, um livro para se ler sorrindo (às vezes gargalhando), com personagens que são incrivelmente fáceis de se amar e uma veia paródica nem um pouco sutil – mas simplesmente deliciosa, já guardando as marcas do estilo que consagraria Austen na História.

sábado, 19 de outubro de 2013


Perguntei aos meus alunos em nosso primeiro dia de aula, o que eles achavam que a ficção poderia proporcionar, porque, afinal, alguém deveria se preocupar em ler ficção. Foi um modo diferente de iniciar uma aula, mas consegui prender a atenção da turma. Expliquei que iríamos ler e discutir diferentes autores durante aquele semestre, mas que todos os autores escolhidos tinham a subversão como algo em comum. Alguns deles, como Gorki e Gold, eram abertamente subversivos em seus objetivos políticos; outros como Fitzgerald e Mark Twain, eram, na minha opinião, ainda mais subversivos, embora isso não fosse óbvio. Disse aos alunos que frequentemente voltaríamos ao termo subversão, pois minha compreensão desse termo era diferente da sua definição habitual. Escrevi no quadro uma das minhas frases favoritas do pensador e filósofo alemão Theodor Adorno: ‘a mais elevada forma de moralidade é não se sentir em casa em sua própria casa’. Expliquei-lhes que a maioria das grandes obras da imaginação pretendia nos fazer sentir como estrangeiros em nossa própria casa. A melhor ficção sempre nos força a questionar aquilo que temos como certo. Ela questiona as tradições e as expectativas, quando estas parecem ser imutáveis. Disse-lhes que gostaria que eles observassem de que modo essas obras os perturbavam, produziram desconforto, fizeram com que analisassem o mundo à sua volta, como Alice no país da maravilhas, através de diferentes olhares.
Alguns anos atrás, o pessoal da JASBRA/PE foi chamado para uma entrevista com o Jornal do Commercio e, na ocasião, o jornalista que nos encontrou citou esse livro como sua porta de entrada para o mundo de Austen.

Foi o que bastou para me deixar curiosa, e ele entrou na minha lista de futuras leituras que é algo assim como as histórias de Sherazade (que, aliás, é lembrada na narrativa), que nunca se acabam, mesmo após mil e uma noites...

Lendo Lolita em Teerã é o relato real de uma professora de literatura inglesa no Irã em plena Revolução, no início da década de 80 – uma época bastante perigosa para se ter idéias próprias e pior ainda para ser mulher no Irã. 

O livro é dividido em quatro partes, cada qual debatendo um autor: Nabokov, Fitzgerald, Henry James e Jane Austen – e também as experiências de Nafisi como professora tanto na Universidade de Teerã como em aulas secretas e particulares com um pequeno grupo de alunas.

Lembre-me bastante, enquanto lia, de Conversas Sobre Jane Austen em Bagdá. A situação das autoras dos dois livros é muito parecida, ainda que Nafisi fale da década de 80 e da guerra entre Iraque e Irã, enquanto Witwit viva o cotidiano da invasão americana de 2003 ao Iraque. 

Os diálogos (emails e cartas) de Witwit com sua correspondente londrina são bastante pessoais e nisso o título do livro é um tanto enganador; Nafisi, por outro lado, se concentra mais naquilo que representa o ‘ler Lolita em Teerã’: a leitura e debate das obras que são analisadas é um ato de revolta, de desafio ao regime autoritário que tenta de todas as formas sufocar qualquer tipo de pensamento independente.

Os debates que Nafisi propõem são excelentes e a reação dos alunos – mesmo aqueles que parecem condenar suas tentativas de ensinar não apenas literatura, mas também senso crítico – é magnífica: o julgamento que se faz de O Grande Gatsby é uma cena quase surreal e demonstra muito bem o poder da palavra, o impacto que grandes obras literárias podem ter; o debate que se segue entre um moralismo ultraconservador e um pensamento mais liberal e crítico demonstra muito bem aquilo que Nafisi quis dizer com essa obra.

Uma resistência literária em que um pequeno grupo se reúne para ler e debater obras proibidas pode parecer muito pouco diante da gravidade dos fatos que a autora apenas toca ao longo de Lendo Lolita em Teerã - se por sorte ou outras questões, o fato é que ela não se expôs tanto quanto algumas de suas alunas e colegas e as represálias que sofre são relativamente brandas em comparação com o que poderiam ter sido.

Contudo, não é pouco o que Nafisi fez. Ela deu aos seus alunos a possibilidade de se fazer ouvir, de conhecer, de criticar. Ela deu esperança e também um exemplo a que aspirar. Em tempos bastante sombrios, ela tentou fazer sua parte, ser um porto seguro, uma réstia de luz. E ao final das contas, para que possa haver revolução, é necessário começar por algum lugar, não?

Então, por que não começar pelos livros?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A continuação da história de Persuasão contada por ninguém mais que o Capitão Wentworth: For You Alone da Susan Kaye! Mais uma vez, Luciana Darce (JASBRA-PE) nos presenteia com uma resenha! 


I can listen no longer in silence. I must speak to you by such means as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half hope.
Esse é o segundo livro da Susan Kaye contando a história de Persuasão pelo ponto de vista do capitão Frederick Wentworth. Quando terminei o primeiro volume, imediatamente emendei com esse e entre um e outro, devo ter passado umas oito horas direto sem parar de ler, quase virando uma noite para conseguir chegar ao final da narrativa.

A história desse segundo volume se inicia logo após o acidente de Louisa Musgrove em Lyme. Wentworth se vê agora às voltas com a ideia de que está comprometido por uma questão de honra, a pedir Louisa em casamento, isso logo após se dar conta de que continua amando Anne e que ela é exatamente tudo o que ele deseja numa mulher.

Para não se enrolar ainda mais na armadilha que ele mesmo armou para si, o capitão parte para visitar seu irmão e esperar que as coisas se assentem. Lá ele tem um vislumbre da felicidade conjugal do mais velho dos irmãos Wentworth e passa o tempo a se torturar com aquilo que poderia ter tido se não tivesse sido tão rancoroso e tão apressado em julgar sua querida Anne.

Obviamente, como todo mundo que leu o original Austeniano, ele será resgatado de seu imbróglio e terminará com o caminho livre para partir para Bath e reencontrar Anne – e para escrever uma das cartas de amor mais apaixonadas de toda a literatura. Claro que antes que isso aconteça, ainda haverá um longo caminho de desentendimentos, ciúmes e esperança com que lidar.

A Kaye saiu-se muito bem como sua reedição da história pelo ponto de vista do Wentworth – ela trabalha o contexto da época, as questões do final da guerra e das consequências de tal fato para os homens da marinha. O capitão ganha profundidade, uma existência para além de sua corte a Anne e ela faz isso de maneira muito crível.

A única coisa que me desagradou foi o final, que dá uma curva tá abrupta daquilo que se espera dos personagens de Austen que me deixou até tonta – primeiro pela súbita mudança de ponto de vista, com a Anne como narradora, segundo, por Greta Green, que faz mais o estilo Lydia Bennet que Anne Elliot. 

É uma única ressalva numa obra que, de outra maneira, tinha tudo para receber um ‘excelente’. Ainda assim, para os amantes de Austen e admiradores do valoroso capitão, é uma boa recomendação.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Luciana Darce (JASBRA-PE) nos envia uma deliciosa resenha! Uma versão de Persuasão, escrita pelo Captião Wentworth: None But You da Susan Kaye.


Eight years ago, when he had nothing but his future to offer, Frederick Wentworth fell in love with Anne Elliot, the gentle daughter of a haughty, supercilious baronet. Sir Walter Elliot refused to countenance a marriage, and Anne's godmother, Lady Russell, strongly advised Anne against him. Persuaded by those nearest to her, Anne had given him up and he had taken his broken heart to sea. When Jane Austen's Persuasion opens in the year 1814, Frederick Wentworth, now a famous and wealthy captain in His Majesty's Navy, finds himself back in England and, as fate would have it, residing as a guest in Anne's former home. Now, it is the baronet who is in financial difficulties, and Anne exists only at her family's beck and call. For eight long years, Frederick had steeled his heart against her. Should he allow Anne into his heart again, or should he look for love with younger, prettier woman in the neighbourhood who regard him as a hero?
Para quem não sabe, Persuasão é meu romance favorito da Austen – Mr. Darcy que me perdoe, mas fica difícil competir com um capitão da marinha com uniforme completo e enorme talento para escrever cartas de amor.

Assim é que foi com empolgação que me lancei a ler None But You, narrando os eventos de Persuasão sob o ponto de vista do Capitão Wentworth – começando bem antes de sua chegada a Kellynch Hall, ainda ao mar, na expectativa de deixar seu navio uma vez que a guerra acabou.

Acompanhamos Wentworth em seus exercícios diários junto à sua tripulação (e esses momentos me lembraram por demais de Mestre dos Mares), seu encontro com Benwick para revelar a morte de Fanny, suas lembranças de Anne quando do primeiro noivado ‘oito anos atrás’.

A história aqui vai até a queda de Louise em Lyme, continuando num segundo volume (de que falarei mês que vem). Há bastante espaço para desenvolvimento do personagem, não apenas dentro do romance com Anne, mas como um todo. O Wentworth de Susan Kaye é extraordinariamente humano, passional, verdadeiro.

Essa primeira parte da história traz um capitão mais amargo, incapaz de se libertar de seus antigos rancores, a todo tempo julgando e observando sua antiga amada – sem querer enxergar que todo o seu interesse na jovem é prova de que seu afeto permanece.

É uma narrativa que te prende – eu não larguei do livro enquanto não o terminei e imediatamente ao final emendei no segundo volume, virando noite para chegar ao final da história. De uma forma geral, None but You me lembrou do desenvolvimento de Mr. Darcy na trilogia de Pamela Aidan, em todos os seus melhores momentos. Kaye respeita a obra original, e é capaz de uma recriação histórica verossímil – exceto, talvez, pelos encontros a sós na juventude de Wentworth e Anne (o que desculpamos em nome do romance).

Melhor parte pra mim, contudo, foi a Sophie. Eu ADORO a Sophie e gostaria muito de ver os eventos de Persuasão sob o ponto de vista dela. Na impossibilidade de tal releitura, resigno-me com as interações dela com o irmão caçula.

Agora, rumo a segunda e melhor parte do romance: o capitão em Bath tentando reconquistar sua amada!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Prezados leitores,

o Luiz Marcatto do site Literar.com.br me avisou a respeito de uma resenha de Persuasão. O texto é de Ingrid Abbade, para ler o texto na íntegra, clique aqui.


Fiquei presa ao livro: o devorei em uns poucos dias e, quando terminou, queria saber mais e mais. Uma parte porque adoro romances e outra porque, em Persuasão, você sempre está tenso. A sensação é que o tempo inteiro algo está prestes a acontecer, mas sem se alongar muito, tornando a leitura mais prazerosa e fácil. Jane Austen sempre será uma boa leitura, um retrato suave da vida feminina de seu tempo, e uma compra sempre certeira.
 

sábado, 4 de maio de 2013

A Gazeta de Longbourn apresenta: mais uma resenha fresquinha de Luciana Darce (representante da JASBRA-PE): Duty and Desire
Of this he was certain: to be in her presence was to know delight in a more vivid sense than ever he had before
Começando de forma bem sincera: em comparação com o volume anterior, An Assembly Such As This, esse segundo volume da trilogia da Aidan deixa um bocado a desejar. Esse livro segue Darcy no período entre sua partida de Netherfield e sua chegada em Rosings. Assombrado pela imagem de Lizzie, ele volta para Pemberley, a fim de passar o período natalino com Georgiana, parte para Londres, onde continua semeando a dúvida na cabeça de Bingley sobre a força da afeição de Jane Bennet e por fim segue para uma festa na casa de um antigo colega de faculdade, onde as coisas parecem estar um pouco mais complicadas do que aparentam. A primeira parte da história vai bem na forma como mostra a preocupação de Darcy com a irmã, que só àquela altura estava começando a se livrar da depressão que o episódio com Wickham provocou; bem ainda como sua interação com a família – o Coronel Fitzwilliam, o Conde e a Condessa de Matlock, bem como seu irmão mais velho e herdeiro do título. Sua ânsia por Elizabeth, seu sonhar acordado com a moça caminhando por entre os corredores de Pemberley, e inclusive sua conversa com Georgiana sobre ela – tudo isso antes que ele pudesse, de fato, reconhecer para si mesmo o que sentia – são os pontos altos do livro. A questão é que esses pensamentos e desejos assustam Darcy, especialmente frente ao seu ‘dever’ de casar bem, com uma moça de família, fortuna e respeitável, que lhe possa dar um herdeiro à altura do sobrenome que há de carregar. E eis então que ele decide sair à caça de uma esposa, aceitando o convite de um antigo colega para ir visitá-lo num velho castelo no meio do nada, onde várias senhoritas de boa posição estão reunidas para uma festa. Só que o convite do amigo é uma armadilha que tem a ver com passar a meia irmã irlandesa para frente a fim de conseguir uma pequena fortuna para pagar os débitos advindos do jogo. E no meio você tem senhoritas despeitadas que foram no passado ignoradas por Darcy e agora querem vingança. E a coisa toda ressoa muito mais o clima gótico de A Abadia de Northanger (com direito a todas as intrigas pelas quais Catherine apenas pode suspirar) do que Orgulho e Preconceito. Enfim, esse é um volume de transição e embora eu possa entender algumas das escolhas que Aidan faz para que a história siga seu curso – os motivos que ao final levam Darcy a aceitar seus sentimentos e arriscar-se com Lizzie – a forma como ela construiu esses fatos não me agradou. Agora é partir para o último volume da trilogia e torcer para que ela consiga voltar a nos encantar como na primeira parte da saga.

sábado, 6 de abril de 2013

A Gazeta de Longbourn apresenta: mais uma resenha fresquinha d da Luciana Darce (representante da JASBRA-PE): Jane Austen Made Me Do It

É uma verdade universalmente conhecida que se não fosse por vampiros, lobisomens, zumbis e Jane Austen, eu não estaria nesse momento do lado de fora do gabinete do Diretor Oakes, enquanto ele, minha mãe, meu pai e a Senhora Pilkington, a conselheira, discutem meu Problema. Eles deixaram a porta entreaberta, pensando que eu ouviria o que estava acontecendo, perceberia que estava encrencado e faria um acordo, tal como uma semana de detenção em vez de terminar suspenso. Mas até que eles consigam DNA, a Quinta Emenda é o melhor amigo de um garoto de quatorze anos.
Estava bastante ansiosa para falar desse livro, uma vez que me diverti imensamente lendo-o. Os contos que compõem essa antologia são quase todos de autores que eu já conhecia e cujo contato tinha sido bastante satisfatório – estão lá Amanda Grange, Stephanie Barron, Pamela Aidan e inúmeros outros. As histórias vão de um extremo a outro num piscar de olhos. Há vários fantasmas, algumas tantas ‘cenas deletadas’, peças do período regencial e romances modernos: num momento você está nos anos 60 interpretando Razão e Sensibilidade a luz dos Beatles; em outro você acompanha Austen contando as sobrinhas sobre os gatos de Mansfield Park; Capitão Wentworth explica como serviu, sem perceber, de cupido entre sua irmã e o então capitão Croft e Darcy vai ao tribunal reclamar de uma camisa molhada. Há recriações históricas de batalhas navais envolvendo irmãos da escritora, cartas e pequenos empurrões na direção certa; encontros e desencontros. Dois contos, pelo menos, se tornaram favoritos: o de um adolescente encontrando seu espaço na ‘cadeia alimentar’ da sociedade graças a uma ligação com os livros da Austen (e por causa deles, enfrentando o ‘status quo’) e o de um jovem residente que após receber pelo correio uma página solta de um romance, repensa seu ressentimento em relação a uma antiga namorada. O primeiro, eu torço para que se torne um livro próprio conforme prometido pelas autoras, porque a história tinha um belo potencial e podia muito bem ser expandida. A maior parte dos contos é excelente e trata de muitos aspectos do que ‘ser fã’ de Austen representa. Mesmo as histórias mais fracas são satisfatórias em seu objetivo de entreter o leitor austeniano. Altamente recomendado.

terça-feira, 19 de março de 2013

Prezados leitores, hoje é dia de lhes apresentar a Coluna das terças-feiras: Indicações de livros



A ideia surgiu a partir da enorme quantitdade de livros publicados relacionados ao universo Austen e divulgá-los, porém tivemos a ideia de compartilhar com os leitores um pouco mais sobre cada obra.
E o livro escolhido para hoje é uma publicação em comemoração ao Bicentenário de Orgulho e Preconceito: Happily ever after de Susannah Fullerton.


Abaixo uma pequena resenha do livro:

O livro de Susannah é uma grande publicação que inclui capítulos a respeito das ilustrações dos livros de Austen (começando por Thomson, passando por Brocks até Hassall), além de uma detalhado texto a respeito dos duzentos anos de traduções de Orgulho e Preconceito. 
Nesse livro, Susannah dedica sua escrita mais para os leitores comuns e não apenas para os acadêmicos, o que torna a leitora mais prazerosa! Além disso, a autora focaliza os papéis de herói e heróina (Darcy e Lizzie, respectivamente).

O livro está à venda na amazon a partir de 16 dólares. 

sábado, 9 de março de 2013

A Gazeta de Longbourn apresenta: mais uma resenha fresquinha da Luciana Darce (representante da JASBRA-PE): Conversas Sobre Jane Austen em Bagdá 

"Fiquei chocada em saber que você e o Ali cresceram sendo acordados com o canto dos pássaros e agora estão cercados por carros bomba e sirenes. As lembranças são tão delicadas que deveriam ser trazidas à tona sempre, especialmente quando elas têm significados para vocês."
O título do livro é talvez algo enganoso, uma vez que não há assim tantas referências a Austen, mas não se preocupe: se você teve sensibilidade para a ficção de Austen, essa obra – bastante real – certamente te conquistará. Conversas sobre Jane Austen em Bagdá reúne a correspondência por email de uma jornalista britânica, Bee Rowlatt e uma professora iraquiana, May Witwit ao longo de três anos logo após as primeiras eleições no Iraque pós-invasão. Bee primeiro conhece May quando a entrevista para um programa sobre as expectativas em torno da eleição. Logo eles começam a trocar mensagens outras, sobre suas vidas, família, problemas pessoais e, no caso de May, o cotidiano em uma zona de conflito. A amizade que termina por uni-las me faz pensar na proximidade das irmãs Dashwood ou das irmãs Bennet mais velhas. May é uma professora universitária que ensina literatura inglesa (e é aqui que entra Austen, mas apenas de relance) e direitos humanos (o que ela mesma considera uma ironia) numa faculdade para mulheres. De família xiita, casou-se com um sunita e por conta disso acaba sofrendo o preconceito de todos os lados possíveis – não bastasse ser mulher numa sociedade extremamente machista e professora, numa época e lugar em que informação e cultura estão sendo perseguidos, ela ainda recebe o desprezo da própria família e da família do marido, passando a conviver particularmente com o pesadelo das perseguições das milícias aos sunitas. Isso para não falar que ela já foi casada anteriormente, o primeiro marido era um alcoólatra, ela se separou, casou com ele de novo, sofreu o pão que o diabo amassou e terminou viúva. Considerando tudo, é quase surpreendente que May tenha não apenas sobrevivido, mas também tido coragem para contar sua história. Quando seu nome aparece numa lista de morte condenando professores, é a gota d’água para May, que com a ajuda de Bee, tenta enfrentar a burocracia e a corrupção absurdas para conseguir um visto e sair do Iraque. Li esse livro de uma sentada só – e quase teria virado a noite para conseguir terminá-lo. A história de May e Bee é inspiradora, por vezes cheias de um humor, em outras verdadeiramente angustiante: enquanto mais e mais obstáculos surgem no caminho de May, é impossível não partilhar do sentimento de impotência de Bee diante dos fatos. Perseguição, ameaças de morte, erros na embaixada e travessias perigosas contrastam com o prosaico de se preocupar com a falta de energia para secar os cabelos ou problemas mecânicos com o carro. Conversas sobre Jane Austen em Bagdá é um livro emocionante, que fala muito ao nosso senso de solidariedade e humanidade – ele é um livro, sobretudo, humano. E é também um livro sobre uma amizade como poucas – na ficção ou fora dela.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Mais uma vez, a Luciana Darce nos traz uma resenha de livro. 
Com vocês: Celebrating Pride and Prejudice! Publicado pela Lansdown Media de Bath, Editor chefe: Tim Bullamore. O livro foi escrito por Hazel Jones e Maggie Lane.

2013 marks the 200th anniversary of the first publication of Pride and Prejudice, Jane Austen’s best-loved novel. To mark this special occasion Hazel Jones and Maggie Lane have written this beautifully illustrated 64-page book looking at the history of the work that Jane Austen called her “darling child”. To celebrate the bicentenary of the book’s first publication in 1813, Hazel and Maggie investigate the reasons for its popularity and describe the extraordinary history, reception and afterlife of the phenomenon that is Pride and Prejudice.
Todo mundo por aqui já deve saber a essas alturas que 2013 marca o bicentenário de publicação do clássico Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Celebrating Pride and Prejudice é uma das inúmeras iniciativas de fãs por todo o mundo para marcar a data. É um belo guia de referência, ricamente ilustrado, com referências históricas, literárias e cinematográficas: textos claros e bem humorados, e uma autêntica apreciação por tudo aquilo que leva o “selo de qualidade” Jane Austen. O único defeito, para mim, foi que o achei demasiadamente curto. Considerando a qualidade do projeto – das informações apresentadas ao projeto gráfico – eu não faria questão de pagar mais por um livro com ainda mais artigos e análises. Adoro ler tudo (ou quase tudo) que escrevem sobre Austen (não à toa estou todo mês batendo ponto aqui) e considerando o claro apuro e carinho com que Celebrating Pride and Prejudice foi feito, só consigo pensar ‘quero mais, mais, mais...’. Eu queria muito que alguma editora brasileira se interessasse por trás esse trabalho na nossa língua, especialmente a se considerar a data histórica que acabamos de passar. Não apenas essa pequena pérola, mas também os diários da Amanda Grange e a fantástica série de Pamela Aidan, Fitzwilliam Darcy, Gentleman (na minha opinião, o livro que melhor encarnou a voz do personagem) – acho que teria sido muito mais digno lançarem esses títulos em vez de 50 Tons do Sr. Darcy (não pretendo ler este, antes que perguntem por uma resenha). Enfim, saí completamente do assunto... O que vocês precisam saber sobre Celebrating Pride and Prejudice é que ele agrada tanto iniciados quanto recém-chegados à obra de Austen, um delicioso aperitivo antes do prato principal: didático sem ser chato, e um verdadeiro colírio para os olhos em termos de edição. Uma boa obra para se ter na coleção.

sábado, 1 de dezembro de 2012


With a suitcase full of Jane Austen novels en espanol, Amy Elizabeth Smith set off on a yearlong Latin American adventure: a traveling book club with Jane. In six unique, unforgettable countries, she gathered book-loving new friends-- taxi drivers and teachers, poets and politicians-- to read Emma, Sense and Sensibility, and Pride and Prejudice.

Whether sharing rooster beer with Guatemalans, joining the crowd at a Mexican boxing match, feeding a horde of tame iguanas with Ecuadorean children, or tangling with argumentative booksellers in Argentina, Amy came to learn what Austen knew all along: that we're not always speaking the same language-- even when we're speaking the same language.

But with true Austen instinct, she could recognize when, unexpectedly, she'd found her own Senor Darcy.

All Roads Lead to Austen celebrates the best of what we love about books and revels in the pleasure of sharing a good book-- with good friends.
Gostaria de ter descoberto esse livro antes de ter viajado – provavelmente teria tentado fazer algo parecido com a experiência da autora em minhas próprias jornadas (se bem que nada tenho a reclamar da minha experiência, que foi absolutamente fantástica...). O tempo todo que eu estava lendo, imaginava como seria participar de um projeto tão bacana sobre Austen.

Bem que a Amy podia vir ao Brasil num volume dois, não? Considerando nossa dimensão quase continental, experimentar um Clube do Livro em cada região do nosso país seria um bom equivalente ao roteiro que ela fez ao longo da América Latina.

Ok, estou me adiantando de novo. Vamos à história.

All Roads Lead to Austen é o relato da autora ao longo de um ano de Estrada pela América Latina – Guatemala, México, Equador, Chile, Paraguai e Argentina – aprendendo espanhol, conhecendo novas culturas e lendo Austen. Lendo Austen em espanhol e, mais importantes, na companhia de pessoas de cada um desses países, formando clubes de leitura a cada parada.

A idéia era ver como cada uma dessas regiões “traduzia” Austen – se eles eram capazes de se identificar com os personagens, de reconhecer temas e situações que se aplicassem ao seu cotidiano.

Não é surpresa que a maior parte dos participantes dos encontros que Amy promoveu tenham sido capazes de se identificar com as histórias que leram – nessa viagem, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Emma. Se seus enredos se passam em um espaço físico e temporal bem delimitado e particular – o interior da Inglaterra no período da Regência – os temas continuam atuais: família, casamento, amor, dinheiro, preconceito, fofoca de cidade pequena...

A surpresa fica pelas experiências de Amy, por aquilo que ela aprende no caminho e o que ela encontra ao final de sua jornada – e posso garantir que ela encontra muito mais do que barganhou.

Um dos melhores livros que tive o prazer de ler esse ano. Para ter na estante, ler, reler e voltar a visitar junto com todas as obras da tia Austen.

sábado, 3 de novembro de 2012


For anyone obsessed with Pride & Prejudice, it's Darcy and Elizabeth like you've never see them before! This modern take introduces us to the wealthy philanthropist Fitzwilliam Darcy, a handsome and brooding bachelor who yearns for love but doubts any woman could handle his obsessive tendencies. Meanwhile, Dr. Elizabeth Bennet has her own intimacy issues that ensure her terrible luck with men. When the two meet up in the emergency room after Darcy's best friend, Charles Bingley, gets into an accident, Elizabeth thinks the two men are a couple. As Darcy and Elizabeth unravel their misconceptions about each other, they have to decide just how far they're willing to go to accept each other's quirky ways...
Li esse livro assim que ele chegou aqui em casa. Passei um mês esperando ansiosamente por ele – um mês é o tempo médio que normalmente leva para chegarem minhas encomendas internacionais – e coloquei-o na frente de tudo que tinha por ler na ocasião.

Diverti-me imensamente com a primeira parte da história. As descrições do Vietnã – onde Lizzie e Darcy primeiro se encontram – são fascinantes. Benneton pinta sua exótica locação com cores e perfumes fortes. Lizzie, como uma médica voluntária (e voluntariosa), ao lado da irmã Jane, que dirige um orfanato na região, está perfeitamente à vontade. Em casa. Ela se adapta tão bem ao ambiente que você não tem dificuldades em aceitar que seja absolutamente natural para as duas Bennet mais velhas estarem ali.

Entra Darcy, presidente de uma poderosa companhia, viajando com os Bingley e os Hurst para auxiliar esses últimos a adotarem uma criança vietnamita (oi?). Aí você tem um Darcy com TOC que desmaia ao sinal de sangue; Bingley tendo de tomar remédios para sua hiperatividade, acidentes com bicicletas, hospitais e emergências lotadas e Darcy e Lizzie se batem... e ela pensa que ele é pobre, gay e que Bingley é o parceiro dele.

Pausa para Lulu cair da cama rindo.

São tantos os desentendimentos para te deixar tonto tentando descobrir para onde está indo a história – e o efeito cômico geral é muito bom – que você nem se dá conta dos furos do roteiro.

É lá pela segunda parte do livro que as coisas desandam – ao menos se seu interesse no livro era ver uma versão moderna de Orgulho e Preconceito. É um pouco estranho ver Lizzie se sentindo tão confortável com Darcy (por causa de suas confusões iniciais), a ponto de tratá-lo como ‘melhor amigo’... E não são apenas os personagens que saem do que esperamos fosse sua personalidade de acordo com a obra original.

Algumas das situações-chave da obra de Austen são alterados para evitar grandes conflitos no romance entre Lizzie e Darcy. Wickham aparece por talvez uns cinco minutos, não convence ninguém, e podia ser completamente dispensado. Anne de Bourgh é aparentemente uma psicopata. Lydia se torna uma heroína. Darcy tem uma cobertura com espelhos no teto do quarto. E Lizzie em algum momento torna-se a princesa inerte à espera de seu cavaleiro de armadura brilhante, presa numa torre de marfim.

Acredito que Compulsively Mr. Darcy funcionaria melhor desvinculado de Orgulho e Preconceito. A história é divertida, tem algumas excelentes tiradas, mas esvazia completamente algumas importantes questões que são discutidas em Austen.

Mas, bem, não se pode ter tudo... e, ao menos, os Hurst não (traumatizam) adotam nenhuma criança. Amém por pequenas graças...

sábado, 6 de outubro de 2012


What better place than pale England to hide a secret society of gentlemen vampires?

Blithely unaware of their presence, Emma, who imagines she has a special gift for matchmaking, attempts to arrange the affairs of her social circle with delightfully disastrous results. But when her dear friend Harriet Smith declares her love for Mr. Knightley, Emma realizes she's the one who wants to stay up all night with him. Fortunately, Mr. Knightley has been hiding a secret deep within his unbeating heart-his (literal) undying love for her...
Uma vez que estamos em outubro, mês do Halloween, decidi dar uma chance a um desses mash-ups tão em moda ultimamente entre clássicos e criaturas sobrenaturais. No caso, vampiros. E o escolhido foi esse título aqui.

É raro, muito raro, que ao terminar um primeiro capítulo eu já esteja querendo fechar o livro. Sempre tento dar segundas e terceiras chances a uma história que não me prende desde a primeira linha. Dei todas as chances possíveis para Emma and the Vampires, mas vou dizer que passei a leitura inteira revirando os olhos e enfiando a cara nas mãos por conta da minha vergonha alheia. O que é uma pena, porque eu estava antecipando dar pelo menos umas boas gargalhadas com ele.

Emma aqui continua sendo a mesma, petulante, mimada e imperiosa, com o bônus de andar com uma estaca de madeira presa sob o vestido com fitas sempre na última moda. Eu estava esperando algo no estilo Buffy, mas não a ponto de ter Mr. Knightley como um vampiro.

E tudo bem, a idéia de Knightley como um vampiro era interessante... mas aí o autor insulta a inteligência da Emma (e nossa por tabela) ao fazê-la aprender a lutar vampiros – e capaz de decapitá-los com um sabre – mas não de reconhecer que a quase inteireza da população masculina de Highbury comuna de mais que o gosto pela vida no campo.

Pelo que entendi da coisa toda, o único homem que não é vampiro em toda a vizinhança é o coitado do Mr. Woodehouse, que morre de medo dos sangue-sugas e não faz a menor idéia de que recebe pelo menos um deles para jantar todos os dias; para não contar que casou a filha mais velha com um deles também.

É óbvio para qualquer um com dois olhos e um mínimo de conhecimento da mitologia vampírica quem é vampiro e quem não é, mas de novo, a Emma e vários outros personagens que necessariamente deveriam saber diferenciar humanos de vampiros parecem não fazer idéia de coisa alguma e os vampiros se dividem entre os bonzinhos, que se restringem a beber dos pescoços de suas esposas (ou Knightley, que diz que só vai beber de sangue aristocrático...) e os selvagens, que atacam virgenzinhas e aparentemente têm uma especial fixação com a coitada da Harriet.

Aliás, gostaria de observar que Knightley parece ter sofrido algum tipo de lavagem cerebral. Deve ser a sede muito provavelmente...

As ações se sucedem de forma abrupta, não existe muita explicação para nada – ou elas são insuficientes ou tão ridículas e frágeis que suscitaram aqueles meus momentos de vergonha alheia.

É uma pena, porque, como já disse, eu antecipava para esse livro um razoável potencial cômico... mas ele termina por não dizer a que veio, te deixando com a sensação incômoda de inconclusão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Encontrei o vídeo abaixo no youtube, trata-se de uma resenha de Sense and Sensibility.






Porém, ao verificar os outros vídeos relacionados, pude perceber que existem diversos vídeos com resenhas literárias e até comparações entre os livros e filmes. Confiram alguns vídeos abaixo:

Jane Austen's Sense & Sensibility Book to Film Adaptation Review 

 Sense and Sensibility and Emma (by Jane Austen) Book Reviews

book review: Sense & Sensibility 

 

 

 

 

sábado, 7 de julho de 2012


"Você não deveria ter me pedido para dançar," ela disse suavemente, quando nós tomamos nossos lugares. "Nós não fomos apresentados ainda."

"Então porque você aceitou?" eu perguntei.

Ela corou, e eu pensei que, apesar de ela não ter a beleza marcante de Miss Elliot, ela era extremamente bonita, com seus traços delicados e olhos escuros.

"Eu mal sei, a não ser que seja porque eu tenho tão poucas oportunidades de dançar que não posso ignorar uma," ela disse.
Todo mundo já deve saber a essas alturas que Persuasão é meu romance favorito dos escritos por Jane Austen – se é para suspirar por algum mocinho, que ele use dragonas e tenha ar de pirata. Wentworth é meu herói favorito e é claro que eu estava ansiosa por chegar nesse volume.

A história começa bem antes da narrativa oficial de Persuasão, com aqueles famosos (e dolorosos) eventos de ‘oito anos atrás’, quando tudo começou entre a jovem Anne e o recém nomeado capitão Frederick.

Sempre admirei Wentworth porque ele é um homem que veio do nada, sem qualquer fortuna ou ligações, e que cresceu por seu próprio esforço e mérito – sem, contudo, perder de vista o que era realmente importante. Se por vezes ele pode parecer um pouco arrogante e até cruel, devemos levar em consideração o desapontamento que ele sofreu quando Anne terminou o noivado entre eles – uma ferida que nunca cicatrizou, a despeito da distância e do tempo, que só pode ser esquecida de verdade diante da renovada admiração e reabertura das possibilidades entre os dois.

Já expus extensamente sobre o assunto do Capitão quando fiz a análise do livro de Austen. Sendo assim, vamos logo ao que interessa hoje.

Embora eu não diga que Captain Wentworth’s Diary seja ruim, sinto que falta a ele alguma coisa para que você acredite estar diante do verdadeiro capitão. Gosto da forma como a Grange escreve e o livro teve seus bons momentos, mas volta e meia eu me pegava surpresa com a imaturidade do Wentworth que ela escreve.

Frederick é um homem ferido, sim, mas nunca um moleque mimado e imaturo – e é dessa forma que ele soa em alguns momentos, especialmente no começo.

Sempre acreditei que Frederick e Anne eram dos casais mais passionais da tia Jane, mas que o amor deles começara de forma quase... espiritual, um verdadeiro encontro de mentes e almas. E não é isso que acontece aqui, a ligação inicial entre os dois não me convenceu de todo e Wentworth parece deixar Anne mais com o ego que o coração partido.

A narrativa melhora uma vez que chegamos ao reencontro ‘oito anos depois’. Temos então o capitão mais maduro, mais crível, mais próximo da voz com que Austen originalmente o dotou. E é claro que não há como não se derreter a partir do momento em que ele decide que seu objetivo deve ser reconquistar Anne (para então descobrir que, de fato, nunca a perdeu).

Eu me diverti mais lendo Mr. Knightley’s Diary, não vou negar. Mas ainda assim, este volume da série que a Grange escreve com os diários dos heróis austenianos é uma leitura agradável para uma sessão da tarde.

* Lu Darce (JASBRA-PE) gosta tanto de uniformes quando Lydia Bennet, embora prefira a marinha à milícia. Ela provavelmente se comportaria de forma tão vergonhosa quanto Lydia se o grupo de capitães de Persuasão aparecesse em sua cidade. Esse e outros segredos não tão secretos, vocês podem encontrar em Coruja em Teto de Zinco Quente.

sábado, 5 de maio de 2012


"Neither man spoke of the past. Darcy could not rid himself of its power but Wickham lived for the moment, was sanguine about the future and reinvented the past to suit his audience, and Darcy could almost believe that, for the present, he had put the worst of it completely out of his mind."
Este mês no Coruja (que está fazendo três anos de existência) vai ao ar um grande especial sobre o detetive mais famoso de todos os tempos, Mr. Sherlock Holmes. No espírito das comemorações, decidi ler para a coluna da Gazeta de Longbourn um romance policial – e não precisei esquentar muito a cabeça para me decidir em Death Comes to Pemberley, que chamou a atenção desde antes de ser lançado.

Ele também acabou entrando em minha cota de ‘livros a ler para o bicentenário de Orgulho e Preconceito’ e ‘audiobooks para ocupar o tempo no trânsito’. Três coelhos com uma só cajadada!

Antes de mais nada, vamos colocar as coisas nesses termos: se você está atrás de romance e ‘oh, Mr. Darcy’, Death Comes to Pemberley não é exatamente seu cupcake (hum... que fome...). Não há cenas de alcova, nem mesmo beijos apaixonados. Em compensação, há uma confortável familiaridade entre Lizzie e Darcy, tranqüila e rotineira. O final é um pouco mais doce e, pelo menos para mim, agradou bastante, bem no espírito da Austen.

Embora haja vários momentos em que acompanhamos Lizzie em seus esforços para trazer um pouco da paz roubada de Pemberley com a chegada de Lydia, é Darcy a voz dominante da história. A verdade, contudo, é que o livro não se concentra no casamento dos Darcy. O interesse aqui é entender o que aconteceu no bosque que cerca a propriedade e que culminou no assassinato de Mr. Denny, possivelmente pelas mãos de seu amigo, Mr. Wickham.

A narrativa abre às vésperas de um grande baile em Pemberley, em memória de Lady Anne, a mãe de Darcy. No meio da noite, uma carruagem quase desgovernada chega contendo uma Lydia histérica.

Wickham e Lydia tinham planejado para que ela pudesse comparecer ao baile dos Darcy a despeito do fato de que nenhum dos dois é particularmente bem-vindo. O cavalheiro em questão largaria a esposa na mansão no meio da noite – de forma que não houvesse outra alternativa para Lizzie além de receber a irmã – e depois seguiria com Denny para Londres, a fim de procurar sua própria diversão. No meio do caminho, contudo, Denny e Wickham discutem, deixam a carruagem para terminar a conversa, se escuta um tiro no meio da noite... e quando são encontrados de novo, Denny está morto e Wickham está aos prantos, completamente bêbado, dizendo que matou ‘seu único amigo’.

A cena é surreal para Darcy, que não apenas tem de lidar com o escândalo às portas de Pemberley, como participar da investigação – uma vez que é um dos magistrados locais. Contudo, a despeito de suas reservas para com Wickham, ele não acredita realmente que esse fosse capaz de assassinato – especialmente de um amigo tão próximo quanto Denny.

Wickham é preso – suas palavras à cena do crime servindo praticamente como uma confissão – e até seu julgamento final haverá outras desconfianças e segredos para desenterrar.

Death Comes to Pemberley foi particularmente fascinante para mim em seus debates sobre a questão da justiça. Descobri pela história que, à época, não existia corte de apelação e se ocorresse um erro judiciário, não haveria como entrar com um recurso. Tudo o que você podia fazer era esperar por um perdão real – e nada garante que este viria ou mesmo que chegaria a tempo de salvar um homem inocente.

Confesso, contudo, que esperava um pouco mais do mistério. Passei metade do livro torcendo o nariz e querendo dar um chute no Coronel Fitzwilliam, ao mesmo tempo em que torcia pela Georgiana e tentava entender o que tinha acontecido. Eu estava absolutamente inclinada a me surpreender com a revelação do final, uma vez que meus próprios talentos de detetive nem de longe tinham me levado a alguma conclusão, mas quando afinal disseram quem tinha sido o assassino, fiquei... não sei dizer exatamente. Desapontada? Descontente? Ligeiramente desconfiada?

Talvez o problema tenha sido exatamente esse: eu estava esperando demais desse livro, alguma reviravolta emocionante, totalmente extraordinária e quando ela aconteceu, veio temperada de enganos inocentes e soluções quase ingênuas.

Gostei do livro pelas cenas familiares, pela forma como é mostrada a intimidade dos Darcy e dos Bingley (porque Bingley me dá vontade de agir como a tia que aperta as bochechas?), como a Georgiana se reafirma em muitos momentos, superando aquela timidez quase doentia de seus tempos de adolescente e especialmente pela aparição de Mr. Bennet. Adorei que o Darcy demonstre confiança e até alívio com a presença do sogro no meio daquele pesadelo.

Não vai virar um favorito, mas é uma boa pedida.

* Lu Darce (JASBRA-PE) presentemente está fazendo bolhas com seu cachimbo e pensando nos misteriosos caminhos que o crime nos pode levar. Essas e outras divagações, vocês podem encontrar em Coruja em Teto de Zinco Quente.
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